
01 - Quem é Gazy Andraus?
Gazy Andraus: Como eu coloquei em meu cartão, antes de tudo, um ser-humano! Ou seja, alguém que tem a consciência de que os rótulos (até mesmo profissionais), são rótulos apenas, e que se resguarda em meu íntimo, uma conexão entre meu ser corporal e minha alma (para mim, que acredito em alma, espírito etc). Muito me perturba a formação social em que vem primeiro o ser profissional, e sua essência vem depois: muitos são rotulados como excelentes na sua profissão, mas na surdina (ou às escondidas), são temidos e/ou tidos como pessoas irascíveis, irritantes, “chatas” etc. De que adianta isso? Não vem em primeiro, como a sociedade pensa, o profissional, e depois o ser humano. Essa falha é um legado distúrbio da cisão cartesiana, entre o corpo e alma, entre a razão e a intuição, hemisfério esquerdo e direito. As universidades, muitas vezes, têm sido prédios de concretos “vazios” e sem alma, porque as pessoas que lá dentro vinham seguindo paradigmas da racionalidade, tornando-se (e a tudo o mais) frias, calculistas, escondendo seus sentimentos e deixando para bem longe a questão da fraternidade. Esta sim, que deveria ser divulgada e irradiada, ainda mais na educação formal escolar e universitária (e conseqüentemente profissional). Ainda bem que esta noção está se modificando atualmente, em muitos lugares. Assim, como Edgar Morin afirmou, sou um humano homo sapiens, mas também homo ludens, e ainda homo demens. Ele se referiu às diversas situações a que a mente humana vive e convive, indo desde a animalidade (resquício do DNA animal) à racionalidade, mas também perpassando à ludicidade, à nossa necessidade de “brincarmos”, de estarmos contentes aqui, e ainda à questão do emocional (demens). Tudo isso é parte do ser humano, e não só a “profissional” ou acadêmica.
A arte nos faz lembrar disso, nos aperfeiçoa também: foi o que aprendi com ela. É essa a parte do que sou (e também integrante do universo, como você ou qualquer outro, e qualquer outra coisa).
Mas, fundamentalmente, sou um ser-humano que busca a felicidade junto a meus semelhantes e a tudo o que me rodeia!
02 - Essa sua consciência de se ver mais humano (do que os humanos se vêem), é reflexo de sua experiência com a arte, como disse, e como começou essa relação: Gazy x Arte?
Gazy Andraus: Na realidade, não me vejo como “mais humano”, mas sim, que as pessoas esquecem de priorizar o sensível, o fraterno, o que realmente é importante, e não o que elas representam (como personagem, como profissionais), pois na minha concepção, a humanidade singrou pelo tecnicismo, esquecendo-se de que tem sentimentos, de que tem que aprender a conviver com suas diferenças culturais, antes de se embrenhar pelo pensamento estritamente tecnológico.
Creio que a experiência da arte ajuda a promover isso. Tal experiência já começa na infância, pois somos todos “artistas”, principalmente quando crianças. Pois é nessa fase que nosso estado mental fica em maior parte em alfa, ainda que despertos. O que quer dizer que o hemisfério direito infantil é extremamente ativo, enquanto que, conforme vai se tornando maduro, há uma modificação estrutural no hemisfério racional, sobrepujando a imaginação e criatividade, e “escondendo” os sentimentos. Isto torna os adultos lamentáveis arremedos da criação, simulando a todo instante uma vida “alegre”, mas que internamente é vazia, causando os dissabores a que estamos acostumados, brigas e até as guerras.
Assim, minha relação com a arte não se rompeu nunca, e fui perceber este dialogismo e sua importância, de forma contundente, no decurso de meu doutoramento. Inclusive, tornando-me (sem querer), cobaia de mim mesmo, já que a tese me fez exacerbar minha racionalidade em prejuízo (temporário) à minha contraparte criativamente artística. Hoje posso entender melhor porque as pessoas têm dificuldade em criar (e em viver).
03 - Duas em uma: O que alguém pode fazer para evitar que isso ocorra, por exemplo, com seus filhos, de perderam esse estado Alfa? E conte um pouco do seu Doutorado, tema, processo de criação...
Gazy Andraus: A criatividade é inerente ao ser humano, que é fruto de um processo evolutivo, abarcando todos os “cérebros” anteriores animais. Porém, o biólogo Maturana já concluiu que no homem, a evolução atinge (ou pelo menos, é atingível) um ápice no que ele chama de “amor”, equivalente a um coroamento de toda essa epopéia evolucionária, que nos insetos, por exemplo, se dá na comunicação da trofolaxe (comunicação e organização dos insetos que inclui troca de fluídos, dentre outros). Assim, o amor e a co-criação é parte de nossas tarefas na existência. Para isso, dispomos de um cérebro com neocortex e funções ambi-hemisferiais, donde o lado esquerdo do cérebro opera a linearidade, a racionalidade, e o direito serve como “input” de tudo o que existe no universo. Acontece que o estado cerebral alfa permite que esta “abertura” se dê com mais fluidez, e menos interferência do estado beta (desperto, consciente). Nas crianças, o estado desperto delas parece ser naturalmente em alfa mais que em beta, ou seja, elas vivem no mundo da fantasia, da criação, e por isso são extremamente criativas. O ensino tradicional cartesiano interfere muito na atuação do hemisfério direito, ao impor a linearidade, a rigidez, a leitura fonética (que ativa o hemisfério esquerdo) etc. O ideal é deixar a criança brincar o máximo possível, e não impregná-la de racionalidade em detrimento à criatividade. Se ela aprender a ler naturalmente antes de 7 anos, muito bem, mas se não, não deve ser forçada a isso, pois as imagens e desenhos alimentam o hemisfério direito (da criatividade), enquanto que a escrita fonética o esquerdo (o racional). Minha tese aponta para o uso de história em quadrinhos na universidade como forma de estimular o hemisfério direito, já que mesmo adulto, o cérebro humano é neuroplástico e pode continuamente se desenvolver. Nas escolas e universidades (nestas últimas principalmente), a tendência é desestimular a criatividade e exacerbar os conhecimentos racionais com leituras fonéticas de textos acadêmicos. Pois bem, se se usar a arte, no caso, histórias em quadrinhos de conteúdo adulto (reflexivo), a ambivalência do texto escrito com as imagens vai estimular o hemisfério direito, conseqüentemente, ampliar a criatividade, imaginação e até ativar os sentimentos no universitário. E ele pode também passar a experimentar sentimentos e imaginações, que podem melhorar sua maneira de pensar, de forma criativa também.
04 - Então acaba que o leitor de quadrinhos adquire uma vantagem com relação ao não leitor...
Gazy Andraus: Com relação à leitura de história em quadrinhos, sim. Mas isso nem é tanto, pois no dia-a-dia há outras formas visuais e sensoriais como o cinema, a música etc. O que acontece é que ler quadrinhos desperta e melhora a sensibilidade estética também, no que concerne aos desenhos, tornando o leitor um “alfabetizado iconicamente”, parafraseando Thierry Groensteen em seu livro “História em Quadrinhos: essa desconhecida arte popular” (lançado pela excelente editora alternativa Marca de Fantasia do Henrique Magalhães). Há muitos relatos de adultos que nunca leram HQ na infância dizendo que têm dificuldade em ler as páginas de quadrinhos, pois não conseguem fazer a visualização integral entre os textos e os desenhos! Esta dificuldade é porque o cérebro delas não aprendeu a “ler iconicamente” os desenhos, tendo dificuldade de fazer o cruzamento entre textos e imagens. E nos quadrinhos há uma vantagem: em cada página, há o passado, presente e futuro ao mesmo tempo. O leitor, enquanto foca sua visão central em determinado quadrinho de uma página, está assimilando pela visão periférica o passado do que já leu, e o futuro nos quadrinhos a seguir que ele contempla ao mesmo tempo. Isso tudo realmente é um ponto a mais e único nessa linguagem, ampliando a atividade cerebral ambi-hemisferial!
05 - Aí que entra "o quadro entre os quadros"?
Gazy Andraus: Minha dissertação de mestrado colocou em pauta a questão da linguagem das HQ, no que concerne aos seus “links” entre os quadrinhos (os espaços chamados de “sarjetas”, “vãos”, “elipses” e/ou etc), e uma pertinência filosófica em relação à própria existência, relacionando a filosofia oriental (o taoísmo) e o paradoxo da micropartícula atômica, por esta ser uma onda probabilística ao mesmo tempo em que um corpúsculo, segundo principalmente o livro “O tao da Física” de Fritjof Capra. Este conceito, eu o imbriquei na questão das histórias em quadrinhos de teor fantástico-filosófica, e que os “espaços” entre os quadrinhos das HQ desse gênero contêm um “vazio” probabilístico que é preenchido pela mente do leitor: ao ler os quadrinhos desenhados, aqueles outros que ficam nos vãos entre os requadros “aparecem” como possibilidades imaginativas na mente de quem lê as HQ, exatamente como apregoam as pesquisas de física quântica, em que o observador é quem vai decidir se aborda a micropartícula como um corpo no espaço-tempo, ou então como uma onda que pode estar em qualquer lugar!
Mas enfoquei precisamente as HQ que fossem “haikaizadas”, ou seja, com uma estrutura similar aos hai-kais, fugindo dos padrões das narrativas tradicionais, como são as HQ de autores como Antonio Amaral, Calazans, Edgar Franco, Rosemário, Al Greco, e as minhas, naturalmente. Especifiquei os quadrinhos cujas mensagens tivessem “koans” em suas estruturas, que são frases-questões dadas pelos mestres budistas a seus discípulos para que suas mentes se ampliassem: e há muitas HQ fantástico-filosóficas nacionais que possuem estas finalidades. Busquei também similares estrangeiros, como nas fases iniciais do autor de HQ francês Caza, e outros como Druillett. Minha dissertação de mestrado em artes (mas disciplinar, de certa forma) se chamou: “Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos? (ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas)” e pode ser acessada no guia dos Quadrinhos, no link: http://www.guiadosquadrinhos.com/monografiaview.aspx?cod_mono=15
06 - Então, as HQs poético-filosóficas tiveram seu apogeu na década de 1990, certo? Pois hoje não se vê muito delas por aí... a que acha que isso seja devido?
Gazy Andraus: Na verdade, também não havia tanto naquela época...estava começando, e apareceram alguns novos autores como Rosemário e Al Grego que começavam a singrar por esse caminho. Mas em relação aos dias atuais, sim, era uma nova estética e forma de narrar com idéias vanguardistas. Talvez ainda haja uma vertente desta linha, meio às escondidas com novos autores amadores...ou talvez seja uma pausa para, em seguida, vir um novo estilo, cria daquele anterior. Porém, essa sua questão me faz repensar que, devido ao aumento contingencial de novos autores de HQ, a melhoria da tecnologia de impressão e o barateamento, eles têm se concentrado mais em fazer novos trabalhos se preocupando com a estética, com a impressão etc. Isto é bom, é a vontade de fazer algo que sempre se quis e não se podia: a editoração de revistas bem acabadas graficamente e atraentes. Na área das livrarias também está havendo um “bum” similar, mas com produções autorais e novas editoras e novos segmentos, como a Companhia das Letras que está criando uma linha só para as HQ! Isso é ótimo, e não creio que seja uma fase apenas. Pois todos nós, que somos autores e também pesquisadores, estamos ajudando a academia a ver com outros olhos os quadrinhos, passando a respeitá-los e percebê-los como uma arte autônoma e passível de ser estudada como o é o cinema, por exemplo. É por isso que não creio que essa fase passará...a universidade dará o suporte para que seu valor se firme. Agora, espero que a empolgação desses novos autores e editoras, assim que comece a se assentar, os façam singrar novamente pelos experimentalismos e descobertas na linguagem plural e multicultural das HQ. Acho que isso, antes, é o que fez aparecerem HQ bem inusitadas como a fantasia-filosófica.
07 - Infelizmente ao mesmo tempo em que editoras como a Cia das Letras lançam um selo dedicado às HQs, outras editoras entram em crise, como no caso da Pixel e a Ópera Graphica. Como avalia esse disparate?
Gazy Andraus: Isso é comum, tanto em tempos de crise, como em tempos de normalização do sistema financeiro. Outras podem vir e substituir essas que fecharam. Ainda mais atualmente, em que há uma onda de se publicar HQ. É verdade que nessa esteira, algumas editoras se aproveitam para publicar quadrinhos porque também sabem que o governo federal tem comprado títulos para o uso didático. O perigo nisso reside no fato de as editoras concentrarem foco só em HQ educacionais, limitando o leque de temas, como já aconteceu em Portugal, quando quadrinhistas de lá reclamavam que as editoras só se interessavam por quadrinhos históricos. Mas acho que a solução no Brasil é melhor, visto que o governo não está privilegiando somente quadrinhos de temas educacionais, mas também ficcionais.
08 - O que acha da onda das adaptações literárias?
Gazy Andraus: As adaptações são sempre bem-vindas, como também se vê nos cinemas. Os filmes, principalmente norte-americanos, ao que sei, são muitas vezes adaptações de livros. Muitas das vezes os autores e livros quase são desconhecidos. Assim, os quadrinhos ajudam a promover a literatura e também os autores. Na esteira, levam as adaptações pro ensino, dinamizando a questão da literatura e os alunos. Porém, é preciso que se saiba que os quadrinhos não existem para servir à literatura! São constituídos de linguagem própria e autônoma, e também incentivam a criatividade imaginativa, tanto quanto os livros, só que de outra maneira. É preciso sinalizar isso aos educadores, pois muitos deles, ainda desinformados da estrutura potencial dos quadrinhos, crêem que não incentivam a imaginação por causa das imagens. Ledo engano: como eu já disse anteriormente, ao ler os quadrinhos, os olhos perscrutam passado, presente e futuro ao mesmo tempo devido à estrutura de uma página de quadrinhos, em que nela coexistem cenas “presentes” ao mesmo tempo, mas que se sequencializam, enquanto que as “sarjetas” (os vãos) entre os requadros, potencializam a imaginação do leitor, que cria as cenas que não estão desenhadas, entre um quadrinho e outro. Ademais, como também afirmei, os olhos do leitor centram foco num quadrinho, enquanto que a visão periférica perscruta os quadrinhos anteriores e os seguintes na estrutura da página, estimulando uma visão abrangente do que acontece (do que aconteceu e do que vai “acontecer”) nos desenhos da página. Isso encontra ecos também na questão de que a imagem atua no hemisfério cerebral direito, o da criatividade, enquanto que a linearidade da narrativa e os textos fonéticos retroalimentam o esquerdo, o da racionalidade, ampliando a inteligência e estimulando o neocortex cerebral. Portanto, dizer que a literatura é superior (ou vice-versa) aos quadrinhos é pura desinformação. Agora, como eu disse antes, a onda de as editoras publicarem adaptações e puxarem para o lado da literatura tem a ver com o governo federal estar adquirindo muitas obras para o ensino.
Porém, creio que no Brasil isso está mais diluído, e a chance de se repetir é menor. Outro detalhe que precisa ser percebido: é preciso que, tanto o governo, quanto as editoras, ao buscarem HQ para o ensino, consultem os pesquisadores da área, para que tenham uma melhor seleção, tanto de material pertinente, quanto de HQ com narrativa melhor estruturada, e não apenas com ilustrações que repetem o textual. Uma dica para quem quer consultar: o observatório de HQ da USP (http://www.eca.usp.br/nucleos/nphqeca/nucleousp/home.asp ) possui pesquisadores gabaritados que podem dar consultoria, e até cursos de formação aos professores. Essa questão dos cursos, para que os professores aprendam a ler quadrinhos, é defendida não só por mim, como por outros pesquisadores que sabem o desconhecimento e despreparo dos educadores. Que adianta haver adaptações e compra de HQ para o ensino, se os próprios professores desconhecem o funcionamento dos quadrinhos?
*Continua




4 comentários:
O Gazy é um grande cara. Idealista tem feito muito pela H.Q., no Brasil. Muito boa a entrevista; quem conhece o Gazy sabe que ele é exatamente suas respostas. Parabéns???
Opa!!
Valeu Martins!
E sim, o Gazy realmente é isso que ele mostra ser!!
Abração!
O Gazy é O CARA! Admiro muito ele, como pessoa e como quadrinhista.
Gazy Andraus sempre foi uma fonte de inspiração para mim desde que eu conheci, em uma palestra que ele fez em minha universidade.
Parabéns Gazy, te admiro muito!
Gazy é O CARA ! Sozinho Gazy criou o genero FANTASIA FILOSOFICA, também criou o primeiro grupo de pesquisa de quadrinhos em um congresso científico, o GTHQ, do qual foi coordenador , criou a revista BARATA em São Vicente em mimeógrafo a álcool em 1979, ele é qurem mais fez pela HQB comno autor e pesquisador, um verdadeiro herói e abnegado, altruísta, um homem santo !
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